Livro de Fevereiro

A Palavra que Resta

Neste romance sensível e profundamente comovente, Stênio Gardel constrói a história de Raimundo Gaudêncio, um homem que chega à velhice carregando silêncios, culpas e uma vida inteira marcada pela repressão. Morador do sertão cearense, Raimundo decide, já idoso, aprender a ler e a escrever movido por um gesto simples e ao mesmo tempo devastador: responder a uma carta recebida cinquenta anos antes — e nunca aberta.

A partir desse aprendizado tardio, o passado retorna com força. O livro revela uma história de amor interrompida pela violência do preconceito, pela vigilância moral e pelas imposições de uma masculinidade rígida, que condena ao apagamento qualquer forma de afeto dissidente. Entre memórias fragmentadas, dores não elaboradas e palavras finalmente nomeadas, A palavra que resta fala sobre o que foi perdido, mas também sobre o que ainda pode ser reparado.

Com uma escrita contida, delicada e potente, Stênio Gardel aborda temas como homossexualidade, exclusão, alfabetização, memória e desejo, transformando o ato de aprender a ler em um gesto radical de sobrevivência e reconciliação consigo mesmo. É um romance sobre o direito de existir, de amar e de, finalmente, dizer aquilo que durante toda uma vida precisou permanecer calado.

Stênio Gardel

 é escritor brasileiro, nascido no interior do Ceará. Sua escrita nasce do encontro entre memória, escuta e silêncio, dialogando diretamente com experiências de vidas marginalizadas no sertão nordestino e com histórias atravessadas pela exclusão social, pela repressão moral e pela negação do afeto.

Inspirado por narrativas orais, vivências do interior, histórias não contadas e pela observação atenta das violências simbólicas que moldam subjetividades, Gardel constrói uma literatura marcada pela delicadeza formal e pela força ética. Seus textos investigam o impacto do analfabetismo, do preconceito e da masculinidade normativa, tratando a linguagem — especialmente a palavra escrita — como possibilidade de reparação, reconhecimento e sobrevivência.

Com uma prosa contida, sensível e profundamente humana, o autor transforma experiências individuais em questões universais, revelando como o aprendizado, o amor e a memória podem operar como gestos tardios, porém decisivos, de reinvenção da própria história.