Curso: Psicanálise e Pensamento Decolonial
Com Marcia Tiburi
*Com certificado
Ementa:
Investigação crítica das interseções entre a teoria e a clínica psicanalítica e a virada decolonial. Análise dos limites da universalização do sujeito psicanalítico tradicional frente à matriz colonial do poder, de gênero e de raça. Exame das contribuições de autoras e autores do Sul Global — Maria Lugones, Aníbal Quijano, Rita Segato, Marcia Tiburi, Silvia Federici, Lélia Gonzalez, Silvia Rivera Cusicanqui, Nego Bispo e Davi Kopenawa — para o redimensionamento dos conceitos de inconsciente, trauma, transferência, linguagem e setting. Discussão das implicações ético-políticas e dos manuseios clínicos necessários para uma escuta atenta aos marcadores sociais da diferença e às neuroses decorrentes do sofrimento colonial.
Justificativa:
A psicanálise formou-se no seio da Europa moderna ocidental, da família burguesa e de um modelo de subjetividade que frequentemente se postula como universal. Embora Freud e seus sucessores tenham desconstruído o mito do sujeito cartesiano consciente, a clínica tradicional por vezes reproduziu a ilusão de um "analista neutro" e de um inconsciente a-histórico, desvinculado dos marcadores territoriais, raciais e de gênero.
No contexto latino-americano e afrodiaspórico, as marcas da colonização, da escravização e das violências estruturais de gênero não atuam apenas como "fatores externos" ou conjunturais, mas como constituintes da própria trama psíquica, do sintoma e das formas do sofrimento.
Propor um curso focado nas relações entre psicanálise e pensamento decolonial responde à urgência de rever a neutralidade analítica: Compreender como a colonialidade do poder opera no manejo da transferência e da contratransferência. Escutar o trauma socio-histórico:Reconhecer que a violência racial e patriarcal atua de forma estruturante no psiquismo. Ampliar o arsenal teórico e clínico: Incorporar epistematologias contra-coloniais e cosmopolíticas que oferecem novos horizontes de cura, elaboração e sustentação da clínica na contemporaneidade.
Objetivo geral:
Proporcionar aos praticantes e estudantes da psicanálise uma reflexão teórico-prática sobre o impacto do pensamento decolonial na escuta clínica, instrumentalizando-os para a identificação, manejo e elaboração do trauma e das neuroses fundadas na colonialidade de poder, gênero e raça.
Compreender os conceitos fundamentais da virada decolonial (Colonialidade do Poder, Colonialidade do Gênero, Ego Conquiro) e sua articulação com a teoria da subjetividade.
Analisar as formas pelas quais o machismo estrutural, a pedagogia da crueldade e o "complexo de vira-lata" organizam manifestações sintomáticas na clínica contemporânea.
Estudar a neurose cultural brasileira a partir da "Amefricanidade" e do "pretuguês" (Lélia Gonzalez) e a noção de identidade Ch'ixi (Cusicanqui) nas dinâmicas de identificação e divisão psíquica.
Discutir horizontes contra-coloniais (Nego Bispo) e ontologias do sonho e da terra (Kopenawa) para a flexibilização do setting analítico e o acolhimento de clínicas ampliadas.
05, 12, 19 e 26 de novembro de 2026
Das 20h às 22h
*Gravações disponíveis por 1 mês
O que você aprenderá em 4 encontros online ao vivo
AULA 1: Fundamentos da Decolonialidade — O Nó Poder-Gênero-Raça e o Psiquismo
Introdução à virada decolonial e à crítica do eurocentrismo.
Franz Fanon, Aníbal Quijano, Achile Mbembe, Sueli Carneiro: A invenção da raça como dispositivo de classificação e dominação
Maria Lugones e o Sistema Moderno-Colonial de Gênero: a intersecção indispensável entre raça, gênero e classe e o apagamento/desumanização das mulheres racializadas.
Enrique Dussel e Roberto Fernández Retamar: O Ego Conquiro como fundamento do sujeito cartesiano; a metáfora do "Caliban" e a subjetividade colonizada.
AULA 2: Violência de Gênero, Submissão Colonial e Subjetividades
Rita Segato: A "pedagogia da crueldade", o mandato de masculinidade e as estruturas elementares da violência. O Sofrimento Ético-Político.
Marcia Tiburi: O Complexo de Vira-Lata), a análise da humilhação e da auto-rejeição cultural, o ressentimento e o ódio ao próprio pertencimento e território gerados pelo olhar do colonizador.
Silvia Federici: A acumulação primitiva, a caça às bruxas e a disciplina do corpo feminino como modelo da expansão colonial-capitalista.
AULA 3: Amefricanidade, Ch'ixi e o Racismo na Formação Psíquica
Lélia Gonzalez: A neurose cultural brasileira; a denegação da presença negra e indígena; a categoria de "Amefricanidade" e o "pretuguês" como fratura da linguagem dominante.
Silvia Rivera Cusicanqui: O conceito de Ch'ixi (mestiçagem antagônica), a simultaneidade de opostos sem fusão e a recusa da assimilação pacífica ou do hibridismo pacificado.
AULA 4: Cosmopolíticas, Território e Outras Práticas de Cura
Nego Bispo: O conceito de contra-colonização, o afeto comunitário, a transmutação e a crítica ao indivíduo isolado.
Davi Kopenawa (com Bruce Albert): A dimensão do sonho como elaboração, o adoecimento do mundo provocado pela ganância colonial e a perda das conexões territoriais e espirituais.
Clínicas estendidas, escutas territoriais, alianças entre a psicanálise e cosmologias não ocidentais na sustenção do cuidado e da cura.
Bibliografia Selecionada
BISPO, Nego (Antônio Bispo dos Santos). A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro, Zahar, 2023.
CUSICANQUI, Silvia Rivera. Ch'ixinakax utxiwa: Uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores. São Paulo: N-1 Edições, 2021.
DUSSEL, Enrique. 1492: O encobrimento do Outro: A origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
LUGONES, Maria. Gênero e decolonialidade. In: Hollanda, Heloisa Buarque de (Org.). Pensamento feminista hoje: Perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução de Sebastião Nascimento. Lisboa: Antígona, 2014. / São Paulo: N-1 Edições, 2018.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: Lander, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
RETAMAR, Roberto Fernández. Caliban e outros ensaios. São Paulo: Busca Vida, 1988.
SEGATO, Rita. As estruturas elementares da violência: Ensaios sobre gênero entre a antropologia, a psicanálise e os direitos humanos. Brasília: Editora UnB, 2003.
TIBURI, Marcia. Complexo de vira-lata: Análise da humilhação brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
GUERRA, Andrea Maris Campos; LIMA, Rodrigo Góes e (Orgs.). A psicanálise em elipse decolonial. Belo Horizonte: Relicário, 2022.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
Conheça a professora
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Conheça a professora *
Marcia Tiburi (1970) é bacharel, mestre e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde também se formou em Artes Plásticas, área na qual ela fez um pós-doutorado na UNICAMP.
Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras (entre elas UNISINOS, UNILASALLE, FAAP, MACKENZIE, UNIRIO e PARIS 8) tendo se dedicado também a pesquisas envolvendo ética e filosofia social, literatura, gênero e feminismo, filosofia da linguagem e filosofia das tecnologias digitais, além de filosofia da educação.
Dessas pesquisas surgiram artigos acadêmicos, artigos de revistas, jornais e programas de divulgação. Além de diversos livros, dentre os quais os ensaios: “Olho de Vidro: a televisão e o estado de exceção da imagem” (Record, 2011); “Filosofia Prática: ética, vida cotidiana, vida virtual” (Record, 2014), “Complexo de Vira-Lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021); “Mundo em Disputa: design de Mundo e distopia naturalizada” (Civilização Brasileira, 2024), e “Ninfa Morta – uma história do odio às mulheres” (Planeta, 2025). E entre os romances: Uma fuga perfeita é sem volta”(Record, 2016); “Sob os pés, meu corpo inteiro” (Record, 2018); “Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve” (Nós, 2023).
É pesquisadora associada ao LLCP (Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre as Lógicas Contemporâneas da Filosofia, da Universidade Paris 8) e palestrante sobre temas relacionados à filosofia, ética, meios de comunicação e educação.
Desenvolveu projetos, tais como “Filosofia do Rock” (CCBB e Caixa Federal, 2012-13), além do ciclo de debates Filosofia da MPB (SESC, 2025). Foi roteirista e apresentadora do “Entrevista” do Canal Futura (2018) e participou do programa Saia Justa do GNT (2005 a 2010). Foi apresentadora das temporadas 1 e 2 do podcast “PODE”, iniciativa da Escola Nacional de Administração Pública (2024-2025).
Concebeu o “Filosofia Pop” (1, 2 e 3) dirigido por Esmir Filhocom produção da Saliva Shots e o SESC SP. Com o SESC edições (em parceria com a Editora Nós) criou também a coleção “Pop Filosofia” na qual publicou o primeiro ensaio homônimo. É colunista da Revista Cult e da Revista Liberta do ICL.
Atualmente, participa do programa de debates “Precisamos conversar” do ICL, ao lado de Juliana Baroni, Assucena e Sara Zara.
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