Livro de Dezembro

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Sodomita

Nesta obra, Alexandre Vidal Porto reconstrói — a partir de fragmentos históricos e muita imaginação literária — a trajetória de Luiz Delgado, violeiro natural de Évora, em Portugal, que viveu no século XVII e foi condenado por “sodomia” — o rótulo jurídico-inquisitorial que se dava à homossexualidade na época. 

Expulso ou degredado para o Brasil colonial, Delgado chega à então cidade de Salvador, na Bahia, onde tenta reinventar sua vida: passa a se dedicar ao comércio, assume um casamento de fachada, mas não abandona seus desejos, paixões e a culpa que o acompanha. 

O romance se move entre a realidade e a ficção, entre a linguagem do português arcaico e a oralidade mais contemporânea, para nos colocar frente a frente com dilemas que atravessam o tempo: o desejo, a repressão, o preconceito, a opressão institucional (neste caso, a Inquisição portuguesa) e também o direito de existir como se é — corpo, alma, desejo. 

No contexto do Brasil colonial, Luiz Delgado precisa lidar com seus próprios impasses: a culpa religiosa, o estigma social, a realidade de que o “crime” de amar — ou de desejar — o que se ama pode levar à punição, à exclusão ou à migração forçada. Ele se casa, se oculta, mas vive outros encontros, algumas paixões sinceras com rapazes que cruzam seu caminho — e na costura entre o histórico e o narrativo, Vidal Porto propõe que essa história silenciada também seja contada. 

Mas o livro não é meramente uma reconstrução de época: ele é uma reflexão sobre a vigência — nos dias atuais — de estruturas de poder, religiões que normatizam o desejo, corpos que são criminalizados ou regulados, e os rastros que essas violências deixaram. Como diz uma das sinopses: “não fala apenas em português arcaico nem apenas na oralidade de hoje, e nunca fica preso numa época antiga porque permanentemente nos coloca perante questões até hoje relevantes — preconceito, opressão, prazer, desejo e o direito de existirmos como somos.” 

Por fim, Sodomita nos convida a revisitar a história das marginadas ou “anunciadas como marginais” — e a pensar que a homossexualidade, longe de ser um tema “moderno”, já foi criminalizada, julgada, exilada. A narrativa de Delgado é uma espécie de reparação simbólica: dar voz a quem a história oficial silenciou, com a verve literária de Vidal Porto que mistura ironia, vulnerabilidade, desejo e memória.

Alexandre Vidal Porto

Alexandre Vidal Porto é escritor, diplomata e colunista brasileiro. Nascido em São Paulo, formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Administração Pública pela Harvard University, nos Estados Unidos. Autor de romances reconhecidos pela crítica, como Matias na Cidade (2005), Sérgio Y. vai à América (2014) — vencedor do Prêmio Paraná de Literatura — e Cloro (2018), Vidal Porto tem se destacado por abordar temas ligados à identidade, sexualidade, deslocamento e direitos humanos com linguagem precisa e sensível. Em Sodomita (Companhia das Letras, 2024), ele revisita a história de um homem condenado pela Inquisição por amar outro homem, reafirmando seu compromisso com narrativas que resgatam vidas silenciadas e ampliam o debate sobre liberdade e diversidade.

O historiador Luiz Mott contextualiza

o romance “Sodomita” de Alexandre Vidal Porto.